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Cronica: Meu primeiro amor



Meu primeiro amor (ou quase isso)
- Arth Silva -

Enquanto todos os meus colegas da 6ª série já narravam suas histórias (ou estórias) tórridas de conquistas lascivas e beijos endiabrados, eu, no pudor de minha timidez, me escondia no canto da sala e ansiava ainda por um dia conseguir perder a virgindade de boca.

As garotas da minha idade não correspondiam aos meus olhares, ou melhor, as que se interessavam, logo desanimavam ao descobrirem meus interesses por coisas enfadonhas como histórias em quadrinho, videogame e miniaturas de Kinder Ovo (é que nessa época eu comprava Kinder Ovo porque custava 80 centavos).

E continuava eu, em meus dias vespertinos de perdedor mirim na batalha árdua contra o ensino fundamental. Quando, um dia, durante a aula de matemática, o Sol entrou furtivo pela janela e trombou com meu olho. Nesse instante, sem avisar, também entrou na sala uma garota vestida de jeans e perfeição; cada cacho dos seus cabelos confirmava todos os meus padrões de beleza da época.
Seu corpo esguio de menina adentrando pela sala da escola pública fazia meu tórax sacudir.

A supervisora da escola apresentava-a para a turma: “Essa é... Ela será a nova colega de vocês...”
Vou chamá-la de Lilian para não revelar seu verdadeiro nome. Então: “Essa é Lilian, ela será a nova colega de vocês, tratem-na bem.”
Se fosse por mim, eu lhe abanaria com folhas de coqueiro enquanto uvas recém colhidas seriam dadas em sua boca.

Lilian era uma garota tímida, quieta e de sorrisos escassos, porém, gastou o primeiro deles comigo ao se sentar na minha frente.
Em local privilegiado, a brisa trazia pra mim a flor do seu cheiro de anjo.

Durante os recreios da 6º série, eu sempre ficava dentro de sala, não conseguia me enturmar à correria do pátio. Como Lilian era novata e não conhecia ninguém, ela também ficou por ali.
Quem diria que aquele meu instinto anti-social iria me dar vantagem?

Sozinhos na sala, ela puxou assunto, eu respondi, ela sorriu e assim nasceu uma ligação imediata. A partir dali sempre estávamos juntos no recreio.

Lilian era extremamente linda, não só para meus padrões, mas para os padrões de todo o colégio, por isso os olhares sorrateiros dos garotos já miravam a pureza da vítima.
Mas estranhamente, dessa vez eu tinha vantagem – cheguei primeiro seus otários –

A escola já nos via como namoradinhos, só que pra minha decepção, nada ainda havia acontecido. Em casa, eu ensaiava as várias situações que “armadamente” acarretariam no primeiro beijo. Tantos demoram uma vida inteira pra encontrar um grande amor e eu havia achado tudo ali, na 6ª série. Eu devia realmente ser especial.

Naquela semana descobri o que era o flerte – olhos verdes me flechavam, seguidos por um sorriso tímido quando percebiam que eu os havia notado. Logo em seguida, eu também fazia o mesmo, sem tanta classe, claro.

Estava decidido, no dia seguinte iria intimá-la ao namoro.


Ao longe, vi Lilian conversando com outras garotas. Ela já estava se enturmando; trocavam até gargalhadas.

Fui chegando timidamente por trás e, inevitavelmente ouvi o assunto; Lilian dizia animada para as meninas: “Vocês não foram na festa ontem? Perderam! A festa foi perfeita, fiquei com 8 meninos lá! Foi cada beijo gostoso! Era pra eu ter ficado com 10, mas 2 dos brotinhos foram embora mais cedo.”

Aquela frase atordoou meu cérebro por alguns segundos a ponto de se tornar inesquecível.

A vermelhidão da surpresa estava entalhada na inexpressão do meu rosto pálido. Fiquei estático. Quando ela se virou e me viu, deu apenas um leve sorrisinho doce e continuou a detalhar cada beijo pras novas amigas.

Minha face fingida era pura tranquilidade, mas por dentro eu queria quebrar tudo; começar uma discussão ali mesmo: “como assim, você me traiu? Depois de te tudo que aconteceu entre nós! Todo meu amor foi em vão? Explique-se vadia!”
 Mas apesar da idade, a razão sussurrava – vocês não têm nada um com o outro seu babaca!

Provavelmente eu tinha entendido tudo errado, ela nunca havia me dado moral, ou quem sabe, deu bola sim, da mesma forma que pra todos os 8 caras na festa do dia anterior.

Desde aquele dia, com a alma infantil ferida, eu prometi nunca mais me apaixonar sem antes conhecer o histórico da garota. Meninas lindas, não mais me conquistariam, a partir de agora eu queria conteúdo. Apenas um rosto bonito não me seduziria novamente. Eu havia aprendido a lição. Chega de amores inconsequentes!

É claro, todas essas promessas foram em vão. No dia seguinte, Talita, uma nova aluna com olhos de infinito se transformou na minha nova paisagem escolar. E assim continuou durante todo colégio; paixões platônicas pelas lindas garotas que, na maioria das vezes, nunca souberam sequer meu nome.

9 comentários oníricos::

Marcello disse...

Gostei, em certas situações me vi na escola desejando as meninas da 8° série.. aquelas das quais nunca irei provar.

Selene * disse...

Ficou tão janela,deu pra ver tudo de perto!Até pisquei os olhos quando acabou para voltar onde eu estava :]

Nilo disse...

Sensacional! O terceiro parágrafo, em especial, é um dos escritos mais legais que já vi na vida.

Arth Silva disse...

É uma experiencia diferente transformar memórias em textos de prosa poetica.logo eu que sempre me apaguei a escrever ficção.

Foram os textos do Nilo que me insentivaram iniciar essas cronicas mais pessoais.

Lillian Teixeira disse...

Assustei ao ler meu nome na história. Mas assustei muito mais ao ler o da minha irmã no último parágrafo hauhauhau... Que coincidência!
Ótimo texto, Arth.

Arth Silva disse...

heheh Até eu estou surpreso com a coincidência!!
Esse mundo de homonimos realmente nos prega peças!

Só Espero que não tenha se identificado com a personagem!

Anônimo disse...

Gostei, muito entusiasmaste a história, uma conto irreal sobre a realidade, só espero que ninguém tenha se identificado com essa historia de amor e traição, mas apesar de bom,um conto de uma "ÁRVORE" poeta!

Anônimo disse...

Arth Silva ameiii o seu conto, e saiba que quando você estava na 6° série eu estava na 5°, eu era super apaixonada em você, pena que você nem me notava... Sou sua fã

Arth Silva disse...

hehehe que pena que você é anonima e não posso me lembrar quem era.

Mas obrigado pelo comentário.

Eu fui perder a virgindade de boca eu tava quase que no ensino médio, trocentos anos depois dessa historia ai. Fui o rei do amor platônico por décadas kkkkkk



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Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mero plágio da vida.