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Sonho Crônico


 A 1ª briga a gente nunca esquece
(Arth Silva)


O peito estufado era minha marca de orgulho por estar ali. Aquela era minha estréia na escola pública. Feliz da vida, andava pelo espaçoso pátio onde cada rosto desconhecido exercia o fascínio único de uma escadaria intocável. Ali, eu era um turista junto aos infinitos aborígenes que sempre ocuparam aquela terra. Ia adentrando nos domínios do recreio, onde garotos corriam e lutavam pela segurança do lanche quando, na minha direção veio um menino com visual de craque de bola, ele me fitou sob suas sobrancelhas em V e, por instantes (no cinema isso seria em câmera lenta), nossos ombros se chocaram.

Tal ato que não entendi por qual motivo aconteceu, fez do pátio um ringue com porte olímpico. Aquela rixa inabalável que sem querer surgia ali, tinha os dentes extremamente brancos do garoto que me ofuscaram a visão enquanto seus punhos cerrados preparam-se pra partir minha face. Eu, menino de 11 anos que lutou apenas com a irmã caçula e perdeu, havia treinado artes marciais apenas nos intervalos dos filmes do Bruce Lee do “Cinema em Casa”, por sorte desviei a cara cerrada daquele soco bruto, tornando meu ato, uma celebração.

O porquê da violência em plena correria do recreio, mal sabia eu, mas a sobrevivência dependia daquilo. Era esquivar ou manter o rosto ali pra ser partido e repercutir com o efeito de “surra braba em pleno pátio”. Graças ao meu desvio, a partir de agora eu também era porradeiro, violento e violador. Mesmo sem saber o que é isso.

Bruninho era o nome do garoto. Aproveitou a situação e gritou em alto e sistemático fôlego – Vou te pegar agora! Seu branquelo! Então empurrou meu peito e prontificou o soco que novamente tentaria me deformar. Antes disso, seus amigos grandalhões com perpétuo porte e alma de esportistas gritaram – A diretora tá olhando, depois você pega ele! - Bruninho arrastado pelos comparsas ainda vibrava feito peixe fora d’água em espasmos de raiva. – Te pego hoje... Hoje... Repetiu essa frase centenas de vezes enquanto se afastavam. Vou te pegar ainda hoje... Hoje... Tal citação ficou tatuada em minha mente pela eternidade do ano letivo.

Estava decidido: eu seria surrado, ou melhor, espancado, triturado, esfolado. Nas aulas de português, esses adjetivos e verbos me perseguiam. Eu apanho, tu apanhas, ele apanha, nós apanhamos, vós apanhais. Infelizmente só a primeira pessoa do singular fazia sentido naquele momento.

Eu não poderia permanecer ali. Seria meu fim. Naquele dia assumi uma culpa qualquer que justificasse minha saída mais cedo da escola.

Ufa! Eu estava livre da fúria de Bruninho! 

Mas o dia seguinte seria meu lamento. Ele viria mais aterrador. Como minha mãe não permitiria que eu abandonasse os estudos, fui pra aula.
“Te pego hoje”
, a frase lapidar emitida pelo pequeno valentão já era bordão escolar e o próximo horário marcaria meu lamento. Bruninho e eu assistiríamos na quadra o mesmo evento realizado pela escola e lá eu seria mutilado pra história do colégio.

Todos meus argumentos pra escapar eram inúteis. Só me restava uma escolha: apanhar de Bruninho diante de toda escola.

Mas não! Agora eu ia me transformar, precisava fazer isso pra garantir a vida. Eu ia ser porradeiro, apagar a panca de nerd e assumir o olhar de surrador. Desceria imponente os degraus da Educação Física e daria uma surra em Bruninho, em seus 10 capangas e ainda gritaria vitorioso de braços abertos pra máquina fotográfica.

Fui descendo as escadas de cabeça baixa quando a multidão passava por mim. Alguns desconhecidos ainda me incentivavam – “vamos lá campeão!”. Eu ia pra um evento único e toda uma geração ia comigo. Em pleno campo forrado de grama, dentro da imensa roda humana formada ali, Bruninho me esperava em pose de pugilista; ao seu lado, sua corja de companheiros que me eliminariam num simples bocejo.

Eu e minhas espinhas entramos naquela redoma de quase 50 garotos de suor em flor. Uma certeza me cravava a alma, seria meu fim com toda escola de testemunha. Ele me surraria e depois seus capangas ainda dançariam Catira em minhas costas esfarrapadas.

Enfim, fiz minha pose de lutador baseado nos filmes do Van Damme e rodamos o círculo feito ai nosso redor. Minha humilhação estava cada vez mais próxima.

Finalmente Bruninho disparou o ataque. Um soco violento que desviei por sorte.  A Multidão ia à loucura cantando marchinhas que jamais saberei a letra. Mas Bruninho continuou raivoso, seus movimentos gozavam com minha cara e animavam a multidão.

Meu olhar de medo inevitavelmente entregava minha derrota e inexperiência marcial. Bruninho sinalizou pra multidão e sem clemência  me acertou um chute letal na cocha. Ao me ver ajoelhado com face de dor e humilhação, sorriu e comemorou olhando pra galera que o empolgava.

Enquanto o campeão comemorava de braços erguidos pra a multidão, eu fechei o punho e lancei meu punho rumo ao sorriso do meu agressor. Antes de levar uma surra, pelo menos eu iria deixar lembranças. Meu soco lhe jogou no chão.

Sua expressão agora era outra.
Mas, antes que ele se levantasse pra me surrar até a morte, a diretora surgiu na redoma. Tinha uma imponência nas bochechas que afugentou todos dali.

O que está acontecendo aqui garoto? − A bochecha me perguntou com severidade.
− Não sei... Não sei... − Respondi à moda do cinema francês, antes de correr com a honra de ser o autor do ultimo golpe.

Então era isso? Era só acertar os primeiros golpes e aguardar a direção chegar? Como não havia pensado nisso antes?

No dia seguinte cheguei à escola me esgueirando pelas sombras do corredor. De longe me avistaram. − Nossa Arthur! Fiquei sabendo que você deu uma surra no Bruninho! Ele sangrou até pelo olho.

Minha surpresa pela notícia foi tamanha que me despertou um sorriso que nunca tive tempo de expressar, antes disso, o grito de Bruninho ao fundo rasgou a cena. – Você tá dizendo por ai que me bateu? Você é meu!

Meus dias de sono acabavam ali.

 

5 comentários oníricos::

Anônimo disse...

Nossa, Arthur!
Excelente, excelente, meus parabéns!

Arth Silva disse...

Obrigado anônimo!!

Marcelino disse...

Gostei demais do macroconto, macro mesmo, pois não a história do garoto medroso vai tendo continuidade ao longo de todas as gerações. parabéns, Arth. Em relação à postagem anterior que fala da resenha postada no Não Leia, eu tenho a dizer que gosto muito de seus microcontod, eles são extremamente significativos e muito eficientes na tarefa de narrar um acontecimento, ou até 9em alguns) expressar sentimentos.

Arth Silva disse...

heheheh obrigado Marcelino!

Sua opinião é muito importante pra mim e pro blog!! Seus comentários sempre são motivadores!!

As cronicas são os poucos espaços onde gosto de narrar a vida desse personagem que pra mim é apenas um quadjuvante das minhas historias, que é EU MESMO...

LuCordeiro, disse...

rsss... Adorei! Passei pelo mesmo qdo era adolescente: a feiosa e magricela do colégio. Só que não apanhava,era zoada,o que dói do mesmo jeito porque é soco na alma. Mas um dia resolvi sozinha,eu e meu travesseiro,acabar com a farra das meninas que me atazanavam o juízo. E lá fui eu,disposta a matar ou a ser morta,mas não a continuar sndo a boba da escola. No banheiro,à hora do recreio,apareceu a oportunidade: a chefe da gang entrou e resolveu me pentelhar. Avancei nela,que não esperava e caiu.Com isso, me senti poderosa e a surrei com vontade:de socos a pontapés fiz o serviço completo, ficando com boa parte dos cabelos dela em minhas mãos. Os gritos foram ouvidos e freiras correram para acudir e me tirar de cima da "chefona". Desse dia em diante,nunca mais fui alvo de chacotas,muito pelo contrário: eu era a peste endemoniada do colégio, e todas as meninas me olhavam com admiração.Fui suspensa,lógico,mas passei de santa à capeta - coisa excelente - e até hoje não levo desaforos pra casa e meus livros de cabeceira passaram a ser "A Arte da Guerra" e "O Príncipe"...



Este é um blog de sonhos cotidianos.
Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mero plágio da vida.