Sempre me senti um penetra na minha própria festa de aniversário.
Enquanto as crianças corriam atrás do bolo e dos brigadeiros, eu passava boa parte do tempo esperando o instante inevitável em que alguém apontaria para mim e diria:
— Ei, espera aí... esse não é o aniversariante.
Era como se eu tivesse invadido a comemoração de outra pessoa e estivesse apenas ocupando a vaga enquanto o verdadeiro dono da festa não aparecia.
Aos cinco anos de idade tomei uma das decisões mais coerentes da minha vida: pedi à minha mãe para nunca mais fazer festa de aniversário para mim.
E ela aceitou.
Talvez tenha sido o primeiro acordo diplomático bem-sucedido entre uma criança ansiosa e o resto da humanidade.
Desde então, os aniversários passaram a acontecer da forma que eu gosto: discretamente, quase como um crime sem testemunhas.
Mas não é só aniversário.
Festas em geral sempre me pareceram lugares estranhos. Festas de rock em Ituiutaba. Baladas. Comemorações. Confraternizações. Qualquer ambiente onde as pessoas parecem ter recebido, no nascimento, um manual secreto explicando exatamente o que fazer com as próprias mãos.
Eu até vou às vezes.
Nas festas de rock, inclusive, vou com bastante frequência.
Mas existe uma diferença enorme entre estar num lugar e pertencer a ele.
Durante anos, eu era apenas uma sombra circulando pelo ambiente. Um detetive noir infiltrado numa investigação sem crime. Um figurante perdido que entrou no set errado e decidiu continuar atuando para não passar vergonha.
As pessoas conversavam. Bebiam. Dançavam. Cantavam junto com a banda.
E eu ficava ali tentando parecer alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.
Não sabia.
A verdade é que boa parte da minha energia era gasta tentando descobrir onde colocar as mãos, para onde olhar e quanto tempo uma pessoa pode ficar parada observando uma parede sem levantar suspeitas.
Foi então que, anos depois, encontrei uma solução elegante para o problema.
Passei a carregar uma máquina fotográfica.
De repente, minhas mãos tinham uma função.
Meu olhar tinha um destino.
Minha presença tinha uma justificativa socialmente aceitável.
Eu não era mais o sujeito perdido numa festa.
Eu era o fotógrafo.
Enquanto todo mundo procurava diversão, eu procurava enquadramentos.
Enquanto uns dançavam, eu ajustava foco.
Enquanto outros bebiam, eu caçava luz.
A câmera virou uma espécie de crachá existencial.
Ela me dava algo que as festas nunca conseguiram me dar sozinhas: um propósito.
Ou pelo menos a ilusão bastante convincente de um.
Talvez por isso eu tenha fotografado tanta gente feliz ao longo dos anos.
Porque registrar a festa sempre me pareceu mais fácil do que participar dela.
E então surge a pergunta que me acompanha desde menino:
Se eu for embora agora, alguém vai perceber?
Algumas vezes resolvi fazer o experimento científico.
Saí de fininho.
Sem anúncio.
Sem despedida.
Sem música dramática.
Apenas desapareci.
E a conclusão da pesquisa, repetida diversas vezes, foi devastadoramente consistente:
Quase ninguém notou.
Raríssimas vezes alguém me ligou perguntando onde eu estava.
A maioria das festas continua funcionando perfeitamente sem a minha presença, o que considero uma demonstração admirável da capacidade humana de adaptação.
Talvez por isso eu já tenha avisado meus pais e alguns amigos próximos:
Quando eu morrer, não quero velório.
Nada de fila.
Nada de flores.
Nada de discursos emocionados escritos às pressas por pessoas que passaram anos sem me telefonar.
Quero fazer como sempre fiz.
Sair da festa de fininho.
Sem atrapalhar a música.
Sem interromper a conversa de ninguém.
Apenas pegar meu casaco invisível e escorregar pela porta dos fundos.
E enquanto caminho embora, pela última vez, gostaria de levar comigo uma única dúvida.
A mesma dúvida que me acompanha desde a infância.
Será que alguém vai dar falta de mim?
Ou será que a festa continuará exatamente igual, apenas com um brigadeiro a mais sobrando na mesa?


1 comentários oníricos::
Tenho essa certeza: ninguém dará falta de minha presença. Por isso, às vezes, me questiono por dar tanta importância para a opinião alheia. Será que vale a pena? Ótimo texto.
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