Ela nasceu com um buraco negro no peito.
Não aparecia em exames. Não sangrava. Não doía, pelo menos não como dor costuma doer. Mas sugava. Sugava silêncios, promessas, ausências. Tudo o que chegava perto demais era atraído e nunca mais voltava igual.
Quando criança, achavam que era distração. A menina olhava para o vazio com intimidade, como quem conversa com algo antigo. Aos poucos, aprendeu que abraços demorados ficavam frios, que palavras grandes demais desapareciam no meio da frase, que pessoas iam embora dizendo “não sei o que aconteceu”.
Ela sabia.
O buraco se alimentava de expectativa. Quanto mais ela esperava, mais fundo ficava. Quanto mais amava, mais escuro girava.
Tentou preencher com risos, com livros, com fé, com gente errada. Nada funcionou. Buracos negros não se preenchem. Eles ensinam.
Um dia, cansada de perder tudo, ela parou de oferecer. Sentou-se à beira de si mesma e ouviu o próprio caos. Descobriu que o buraco também guardava coisas: versões antigas dela, sonhos abortados, coragens esquecidas, tudo comprimido, intenso, vivo.
Então fez algo estranho: parou de lutar contra a gravidade.
Passou a girar junto.
Desde então, quem se aproxima sente um peso diferente. Não é vazio. É profundidade. Nem todos aguentam. Alguns fogem. Outros aprendem a orbitar.
E ela segue assim: não completa, não vazia.
Infinita.


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