Há quem precise de terapia. Eu prefiro lugares altos, uma câmera, um livro e algumas horas longe da civilização.
Nesse fim de semana, subi a Serra do Corpo Seco, em Ituiutaba/MG, com minha fiel escudeira, Pirukinha, minha cachorrinha fiapo de manga.
A tarde estava deslumbrante. Lá em cima, só vento, passarinhos e silêncio. Li, fotografei o pôr do sol tijucano e, deitado no chão, vi as estrelas nascerem uma a uma.
Foi bonito.
Bonito demais.
E talvez esse tenha sido o problema.
Porque toda coisa bonita demais costuma esconder alguma merda.
Quando resolvi descer, já estava completamente escuro.
E não havia lua.
Nenhuma.
Apenas aquele breu bonito e inconveniente que transforma qualquer mato em cenário de filme de terror de baixo orçamento.
Liguei a lanterna do celular.
A bateria tava acabando.
É claro que estava.
Passei a tarde fazendo fotografia como se tivesse descoberto a National Geographic e agora o telefone estava morrendo justamente quando eu mais precisava dele.
Continuei andando.
Foi quando ouvi o primeiro rosnado.
Parei.
Pirukinha também.
Outro rosnado.
Depois outro.
Mais distante.
Mais perto.
De um lado.
Do outro.
Parecia haver cachorros por toda parte.
E isso, convenhamos, era a explicação mais razoável.
O problema é que, no escuro, a razão costuma ser a primeira coisa a abandonar o sujeito.
Pirukinha começou a rosnar também.
Só que o rosnado dela tinha menos coragem do que indignação.
Ela queria bancar a valente, mas seu corpo dizia o contrário.
Os sons aumentavam.
Latidos roucos.
Pesados.
Diferentes.
Eu não enxergava cachorro nenhum.
Mas podia ouvir o movimento.
Folhas mexendo.
Galhos quebrando.
Passos.
Alguma coisa circulando a gente.
Eu tinha que decidir, ou eu apontava a lanterna pra Pirukinha ou pro caminho pra chegar no meu carro.
Foi então que avistei meu carro.
Nunca achei que ver aquele velho carro seria tão emocionante.
Apressei o passo.
Cheguei à cerca.
Pulei.
Chamei Pirukinha.
Ela não pulou.
— Vem, Pirukinha!
Nada.
Ela ficou olhando para o escuro.
Rosnando.
Os latidos começaram novamente.
Mais altos.
Mais próximos.
Eu olhava para um lado.
Nada.
Para o outro.
Nada.
Mas eles estavam ali.
Em algum lugar.
Ao nosso redor.
E foi nesse momento que surgiu a pergunta que nenhum homem sensato deveria fazer no meio de uma serra escura:
E se for lobisomem?
Porque cachorro é uma coisa.
Lobisomem é outra.
Principalmente quando você não está vendo nenhum dos dois.
Fui até a porta do carro.
O problema é que a trava estava com defeito.
Às vezes funcionava.
Às vezes não.
Porque, aparentemente, além de escolher passeios noturnos em serras isoladas, eu também gosto de colecionar problemas mecânicos.
Apertei o controle.
Nada.
Apertei de novo.
Nada.
Atrás de mim: Outro latido.
Mais perto.
Apertei o botão novamente.
Nada.
Minha lanterna tava ligada, mas a bateria estava nas últimas.
Eu precisava usar as duas mãos para mexer no controle.
Mas, se eu tirasse a lanterna do chão, perderia Pirukinha de vista.
E eu não sabia o que estava ali.
Não sabia quantos eram.
Não sabia se eram cachorros.
E muito menos sabia se cachorros eram a pior possibilidade.
Finalmente a porta abriu.
Abri a de trás para Pirukinha.
A da frente para mim.
— Entra.
Ela não entrou.
Claro que não.
A criatura que eu estava tentando salvar resolveu, naquele instante, que precisava enfrentar os monstros.
Pirukinha ficou olhando pro escuro, rosnando.
— Pirukinha, pelo amor de D...
Ela não queria saber.
Fui buscá-la.
E os latidos ficaram ainda mais altos.
Mais próximos.
Agora pareciam estar em volta do carro.
Eram latidos roucos.
Grossos.
Quase humanos.
Foi aí que pensei:
Caramba.
Se isso for um lobisomem, eu devia filmar.
Mas imediatamente pensei:
Se eu der bobeira filmando e pegarem a Pirukinha, eu vou me arrepender pelo resto da vida.
Além disso, minha bateria estava em estado terminal.
Não dava para transformar uma possível experiência sobrenatural em conteúdo para Instagram.
Empurrei Pirukinha para dentro.
Ela finalmente entrou.
Joguei o celular aceso no banco.
Pulei pra dentro.
Fechei a porta.
Por alguns segundos, ficamos os dois em silêncio.
Eu e aquela pequena fiapo de manga.
Ela olhando para trás.
Eu olhando para frente.
Liguei os faróis.
E então vi.
Dois.
Quatro.
Seis.
Oito.
Talvez dez.
Pequenos pontos brilhantes no escuro.
Olhos.
Muitos olhos.
Não dava para enxergar os corpos.
Só os olhos.
Pisei no acelerador.
O carro deu um tranco.
Fiz o balão e entrei na estrada de terra.
E foi então que eles começaram a correr atrás da gente.
Ou pelo menos foi isso que pareceu.
Ouvia pancadas na lataria.
Pedras voando.
Galhos.
Ou talvez alguma coisa batendo no carro.
Não tive coragem de olhar.
A estrada tava cheia de buracos.
Eu precisava manter os olhos na frente.
Um erro e o carro poderia capotar.
Um buraco maior e poderíamos simplesmente desaparecer no mato.
Enquanto isso, Pirukinha latia olhando pelo vidro traseiro.
Latia como se tivesse descoberto uma verdade que eu, covarde e humano, preferia continuar ignorando.
Eles nos acompanharam por alguns minutos.
Ou alguma coisa nos acompanhou.
Porque essa é a parte estranha.
Eu não vi nenhum cachorro.
Não vi lobisomem.
Não vi criatura nenhuma.
Só ouvi.
Ouvi os rosnados.
Os latidos.
As patas.
As coisas correndo.
E, de vez em quando, alguma coisa batendo na lataria.
Até que, pouco a pouco, os sons foram ficando para trás.
Continuei dirigindo.
Sem parar.
Sem olhar.
Até chegar à estrada.
Só então diminui a velocidade.
Olhei para Pirukinha.
Ela estava quieta.
Eu também.
Nenhum de nós parecia interessado em comentar a experiência.
Talvez porque não tivéssemos certeza do que havia acontecido.
Talvez porque algumas coisas sejam melhores quando permanecem sem explicação.
Cheguei em casa.
Dei água para Pirukinha.
Coloquei o celular para carregar.
E fui olhar as fotografias que tinha feito naquela tarde.
Pôr do sol.
Serra.
Céu.
Estrelas.
Tudo muito bonito.
Tudo muito tranquilo.
Até chegar à última fotografia.
Aquela que eu não lembrava de ter feito.
Estava escura.
Quase completamente preta.
Mas, no canto inferior da imagem, havia dois pequenos pontos claros.
Dois olhos.
Talvez fosse apenas o reflexo de alguma coisa.
Talvez um cachorro.
Talvez uma estrela.
Talvez nada.
Ampliei a imagem.
E pensei que talvez fosse melhor não descobrir.
Afinal, existem fotografias que a gente tira para guardar lembranças.
E existem aquelas que parecem ter sido tiradas para nos lembrar de não voltar.
Mas conhecendo a Pirukinha...
Semana que vem ela provavelmente vai querer ir de novo.
E eu, idiota como todo bom protagonista de filme de terror, provavelmente vou levar a câmera.













