Nesse feriado de 15 de agosto, fui com meus amigos Oton Neto, Marco Túlio,
Bruno Matos e Aline Borges fazer uma trilha até a Cachoeira da Pedra Caída, em
Monte Alegre de Minas.
Chegamos, descemos o vale e fomos até onde dava para ver a cachoeira em todo o
seu esplendor.
Foi aí que aconteceu a primeira coisa estranha.
Um barulho gigantesco.
Parecia uma pedra enorme despencando, estourando no chão. O estrondo veio de
algum lugar muito próximo. Instintivamente, todo mundo abaixou.
Estávamos justamente embaixo da cachoeira.
Pensamos que alguma pedra gigantesca tivesse despencado lá de cima.
Só que, quando olhamos para todos os lados, não havia pedra nenhuma.
Nenhum sinal de queda.
Nada.
Passaram-se alguns minutos.
Então ouvimos uma voz de mulher vindo da mata.
Olhei para o meio da floresta fechada e encontrei uma senhora.
Bem velha.
Cabelos grisalhos, ou talvez loiros, não sei dizer.
Ela estava simplesmente ali.
No meio do mato.
Ela foi se aproximando e começou a conversar conosco. Disse que estava em uma
fazenda ali perto, tinha ouvido o barulho da cachoeira e resolveu sair pra
procurar.
Até aí, tudo bem.
Então ela contou que, cerca de trinta anos atrás, costumava ir àquele lugar com
o filho.
Queria voltar pra relembrar aqueles bons momentos.
Foi aí que comecei a achar tudo aquilo um pouco estranho.
Primeiro: como diabos uma família deixa uma senhora daquela idade sair sozinha
pelo meio de uma mata?
Segundo: olhem a roupa da mulher.
Ela estava de rasteirinha.
RASTEIRINHA.
Aquela sandália que você arrebenta atravessando duas ruas, imagina subindo um
vale daqueles.
Usava um short curto, pernas completamente descobertas, e uma blusinha deixando
ombros, pescoço e braços à mostra.
Era uma roupa de avó pra ficar em casa numa tarde quente e tediosa.
Não de alguém que resolveu fazer uma trilha no meio do mato.
Mas tudo bem.
Eu, Bruno e Oton continuamos descendo e desbravando o local.
Aline e Marco Túlio ficaram com a senhora e começaram a ajudá-la a subir.
Na minha cabeça, a situação era bastante simples:
“Eles vão levar a velha até a estrada, explicar onde ela está, talvez oferecer
uma carona até a fazenda. Pronto.”
Inclusive, fiz uma piada com o Oton:
— Olha lá. A veinha está levando os dois. Eles vão desaparecer.
E continuei:
— A partir de agora, a veinha vai sumir com cada um de nós. Um por um.
Só que eles voltaram.
Sozinhos.
Sem a velha.
— Ué. Cadê a veia?
— Ela disse que queria ir embora. Que sabia voltar sozinha.
…
Sabe aquelas decisões imbecis que os personagens tomam em filmes de terror e
você fica gritando para a televisão:
“NÃO FAZ ISSO, SEU ANIMAL!”
Pois é.
Era exatamente isso.
Como assim vocês simplesmente deixaram uma senhorinha idosa sozinha no meio
daquela mata?
Nós estávamos tendo dificuldade para subir aquele vale.
IMAGINA ELA.
DE RASTEIRINHA.
E se ela aparecer morta?
Seremos os principais suspeitos.
Foi aí que comecei a juntar as coisas.
Eu fotografo.
Estava com meu equipamento.
E não fiz UMA foto daquela senhora.
Por quê?
Ninguém perguntou o nome dela.
Por quê?
Ninguém perguntou de qual fazenda ela vinha.
Por quê?
E aquele papo de voltar ali depois de trinta anos para relembrar os momentos
que viveu com o filho?
Trinta anos atrás…
Quando ela ainda estava viva?
Comecei a olhar pros meus amigos.
E eles estavam estranhamente quietos.
Principalmente os dois que tinham ficado com ela.
Foi então que me veio outra pergunta:
Como uma senhora aparece do nada, perfeitamente limpa, no meio de uma floresta
fechada…
…e depois simplesmente desaparece?
Sem deixar rastro.
Sem ninguém vê-la indo embora.
Sem sequer sabermos para onde ela foi.
Enquanto isso, ali perto, acontecia uma procissão em uma igrejinha perdida no
meio do nada, naquela região do Pantâno de Monte Alegre de Minas.
Fiquei olhando pras pessoas.
Tentando encontrar algum rosto conhecido.
Ou melhor…
algum rosto.
Procurei a senhorinha no meio da procissão.
Nada.
Nunca mais a vi.
E quanto mais eu pensava na história, mais elementos sobrenaturais apareciam.
O barulho da pedra que ninguém encontrou.
A mulher surgindo do meio da mata.
A história de trinta anos atrás.
A roupa completamente inadequada pra uma trilha.
O fato de ninguém saber seu nome.
E, principalmente, o desaparecimento.
Eu, que talvez seja uma das pessoas mais céticas do mundo, fiquei com uma
dúvida bastante inconveniente:
E se não tiver sido apenas coincidência?
E se aquela senhora realmente não fosse uma senhora?
E se fosse alguma coisa que estava ali para nos encontrar?
E tem uma última coisa que me incomoda.
Desde que Aline e Marco Túlio voltaram sem a velha, os dois ficaram meio
calados.
Talvez estivessem apenas cansados.
Talvez estivessem assustados.
Ou talvez…
a veinha tenha levado alguma coisa deles.
Porque, se aquilo era mesmo uma entidade, descobri uma coisa naquele dia:
Além do poder de assustar pessoas, talvez ela também tenha o poder de fazer
quem está por perto tomar decisões completamente irracionais.
E, se eu realmente estava dentro de um filme de terror ruim…
a pergunta que ficou na minha cabeça durante a volta foi:
Quem será o protagonista dessa história?












