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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A VELHINHA DA CACHOEIRA DA PEDRA CAÍDA

 



Nesse feriado de 15 de agosto, fui com meus amigos Oton Neto, Marco Túlio, Bruno Matos e Aline Borges fazer uma trilha até a Cachoeira da Pedra Caída, em Monte Alegre de Minas.

Chegamos, descemos o vale e fomos até onde dava para ver a cachoeira em todo o seu esplendor.

Foi aí que aconteceu a primeira coisa estranha.

Um barulho gigantesco.
Parecia uma pedra enorme despencando, estourando no chão. O estrondo veio de algum lugar muito próximo. Instintivamente, todo mundo abaixou.
Estávamos justamente embaixo da cachoeira.
Pensamos que alguma pedra gigantesca tivesse despencado lá de cima.
Só que, quando olhamos para todos os lados, não havia pedra nenhuma.
Nenhum sinal de queda.

Nada.

Passaram-se alguns minutos.
Então ouvimos uma voz de mulher vindo da mata.

Olhei para o meio da floresta fechada e encontrei uma senhora.
Bem velha.
Cabelos grisalhos, ou talvez loiros, não sei dizer.
Ela estava simplesmente ali.
No meio do mato.
Ela foi se aproximando e começou a conversar conosco. Disse que estava em uma fazenda ali perto, tinha ouvido o barulho da cachoeira e resolveu sair pra procurar.

Até aí, tudo bem.

Então ela contou que, cerca de trinta anos atrás, costumava ir àquele lugar com o filho.
Queria voltar pra relembrar aqueles bons momentos.

Foi aí que comecei a achar tudo aquilo um pouco estranho.
Primeiro: como diabos uma família deixa uma senhora daquela idade sair sozinha pelo meio de uma mata?

Segundo: olhem a roupa da mulher.
Ela estava de rasteirinha.

RASTEIRINHA.

Aquela sandália que você arrebenta atravessando duas ruas, imagina subindo um vale daqueles.
Usava um short curto, pernas completamente descobertas, e uma blusinha deixando ombros, pescoço e braços à mostra.
Era uma roupa de avó pra ficar em casa numa tarde quente e tediosa.

Não de alguém que resolveu fazer uma trilha no meio do mato.
Mas tudo bem.

Eu, Bruno e Oton continuamos descendo e desbravando o local.
Aline e Marco Túlio ficaram com a senhora e começaram a ajudá-la a subir.

Na minha cabeça, a situação era bastante simples:
“Eles vão levar a velha até a estrada, explicar onde ela está, talvez oferecer uma carona até a fazenda. Pronto.”

Inclusive, fiz uma piada com o Oton:
— Olha lá. A veinha está levando os dois. Eles vão desaparecer.

E continuei:
— A partir de agora, a veinha vai sumir com cada um de nós. Um por um.

Só que eles voltaram.

Sozinhos.

Sem a velha.

— Ué. Cadê a veia?
— Ela disse que queria ir embora. Que sabia voltar sozinha.
…
Sabe aquelas decisões imbecis que os personagens tomam em filmes de terror e você fica gritando para a televisão:
“NÃO FAZ ISSO, SEU ANIMAL!”

Pois é.
Era exatamente isso.
Como assim vocês simplesmente deixaram uma senhorinha idosa sozinha no meio daquela mata?
Nós estávamos tendo dificuldade para subir aquele vale.
IMAGINA ELA.

DE RASTEIRINHA.

E se ela aparecer morta?
Seremos os principais suspeitos.
Foi aí que comecei a juntar as coisas.

Eu fotografo.
Estava com meu equipamento.
E não fiz UMA foto daquela senhora.
Por quê?

Ninguém perguntou o nome dela.
Por quê?

Ninguém perguntou de qual fazenda ela vinha.
Por quê?

E aquele papo de voltar ali depois de trinta anos para relembrar os momentos que viveu com o filho?
Trinta anos atrás…
Quando ela ainda estava viva?

Comecei a olhar pros meus amigos.
E eles estavam estranhamente quietos.
Principalmente os dois que tinham ficado com ela.
Foi então que me veio outra pergunta:
Como uma senhora aparece do nada, perfeitamente limpa, no meio de uma floresta fechada…
…e depois simplesmente desaparece?
Sem deixar rastro.
Sem ninguém vê-la indo embora.
Sem sequer sabermos para onde ela foi.

Enquanto isso, ali perto, acontecia uma procissão em uma igrejinha perdida no meio do nada, naquela região do Pantâno de Monte Alegre de Minas.

Fiquei olhando pras pessoas.
Tentando encontrar algum rosto conhecido.
Ou melhor…
algum rosto.
Procurei a senhorinha no meio da procissão.
Nada.
Nunca mais a vi.

E quanto mais eu pensava na história, mais elementos sobrenaturais apareciam.

O barulho da pedra que ninguém encontrou.
A mulher surgindo do meio da mata.
A história de trinta anos atrás.
A roupa completamente inadequada pra uma trilha.
O fato de ninguém saber seu nome.
E, principalmente, o desaparecimento.

Eu, que talvez seja uma das pessoas mais céticas do mundo, fiquei com uma dúvida bastante inconveniente:
E se não tiver sido apenas coincidência?

E se aquela senhora realmente não fosse uma senhora?
E se fosse alguma coisa que estava ali para nos encontrar?
E tem uma última coisa que me incomoda.
Desde que Aline e Marco Túlio voltaram sem a velha, os dois ficaram meio calados.
Talvez estivessem apenas cansados.
Talvez estivessem assustados.
Ou talvez…

a veinha tenha levado alguma coisa deles.
Porque, se aquilo era mesmo uma entidade, descobri uma coisa naquele dia:
Além do poder de assustar pessoas, talvez ela também tenha o poder de fazer quem está por perto tomar decisões completamente irracionais.

E, se eu realmente estava dentro de um filme de terror ruim…
a pergunta que ficou na minha cabeça durante a volta foi:
Quem será o protagonista dessa história?


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A noite em que a Serra do Corpo Seco ROSNOU.


Há quem precise de terapia. Eu prefiro lugares altos, uma câmera, um livro e algumas horas longe da civilização.

Nesse fim de semana, subi a Serra do Corpo Seco, em Ituiutaba/MG, com minha fiel escudeira, Pirukinha, minha cachorrinha fiapo de manga.

A tarde estava deslumbrante. Lá em cima, só vento, passarinhos e silêncio. Li, fotografei o pôr do sol tijucano e, deitado no chão, vi as estrelas nascerem uma a uma.

Foi bonito.

Bonito demais.

E talvez esse tenha sido o problema.

Porque toda coisa bonita demais costuma esconder alguma merda.


Quando resolvi descer, já estava completamente escuro.
E não havia lua.
Nenhuma.
Apenas aquele breu bonito e inconveniente que transforma qualquer mato em cenário de filme de terror de baixo orçamento.


Liguei a lanterna do celular.

A bateria tava acabando.
É claro que estava.
Passei a tarde fazendo fotografia como se tivesse descoberto a National Geographic e agora o telefone estava morrendo justamente quando eu mais precisava dele.

Continuei andando.
Foi quando ouvi o primeiro rosnado.

Parei.
Pirukinha também.
Outro rosnado.
Depois outro.
Mais distante.
Mais perto.
De um lado.
Do outro.

Parecia haver cachorros por toda parte.

E isso, convenhamos, era a explicação mais razoável.
O problema é que, no escuro, a razão costuma ser a primeira coisa a abandonar o sujeito.

Pirukinha começou a rosnar também.

Só que o rosnado dela tinha menos coragem do que indignação.
Ela queria bancar a valente, mas seu corpo dizia o contrário.

Os sons aumentavam.
Latidos roucos.
Pesados.
Diferentes.
Eu não enxergava cachorro nenhum.
Mas podia ouvir o movimento.
Folhas mexendo.
Galhos quebrando.
Passos.
Alguma coisa circulando a gente.

Eu tinha que decidir, ou eu apontava a lanterna pra Pirukinha ou pro caminho pra chegar no meu carro.

Foi então que avistei meu carro.
Nunca achei que ver aquele velho carro seria tão emocionante.
Apressei o passo.
Cheguei à cerca.
Pulei.
Chamei Pirukinha.

Ela não pulou.

— Vem, Pirukinha!
Nada.
Ela ficou olhando para o escuro.
Rosnando.
Os latidos começaram novamente.
Mais altos.
Mais próximos.
Eu olhava para um lado.
Nada.
Para o outro.
Nada.
Mas eles estavam ali.
Em algum lugar.
Ao nosso redor.

E foi nesse momento que surgiu a pergunta que nenhum homem sensato deveria fazer no meio de uma serra escura:
E se for lobisomem?

Porque cachorro é uma coisa.
Lobisomem é outra.
Principalmente quando você não está vendo nenhum dos dois.

Fui até a porta do carro.
O problema é que a trava estava com defeito.
Às vezes funcionava.
Às vezes não.
Porque, aparentemente, além de escolher passeios noturnos em serras isoladas, eu também gosto de colecionar problemas mecânicos.

Apertei o controle.
Nada.
Apertei de novo.
Nada.
Atrás de mim: Outro latido.
Mais perto.
Apertei o botão novamente.
Nada.

Minha lanterna tava ligada, mas a bateria estava nas últimas.
Eu precisava usar as duas mãos para mexer no controle.
Mas, se eu tirasse a lanterna do chão, perderia Pirukinha de vista.

E eu não sabia o que estava ali.
Não sabia quantos eram.
Não sabia se eram cachorros.
E muito menos sabia se cachorros eram a pior possibilidade.
Finalmente a porta abriu.
Abri a de trás para Pirukinha.
A da frente para mim.
— Entra.

Ela não entrou.

Claro que não.

A criatura que eu estava tentando salvar resolveu, naquele instante, que precisava enfrentar os monstros.
Pirukinha ficou olhando pro escuro, rosnando.
— Pirukinha, pelo amor de D...

Ela não queria saber.
Fui buscá-la.
E os latidos ficaram ainda mais altos.
Mais próximos.
Agora pareciam estar em volta do carro.

Eram latidos roucos.
Grossos.
Quase humanos.

Foi aí que pensei:
Caramba.
Se isso for um lobisomem, eu devia filmar.
Mas imediatamente pensei:
Se eu der bobeira filmando e pegarem a Pirukinha, eu vou me arrepender pelo resto da vida.
Além disso, minha bateria estava em estado terminal.
Não dava para transformar uma possível experiência sobrenatural em conteúdo para Instagram.

Empurrei Pirukinha para dentro.
Ela finalmente entrou.
Joguei o celular aceso no banco.
Pulei pra dentro.
Fechei a porta.
Por alguns segundos, ficamos os dois em silêncio.
Eu e aquela pequena fiapo de manga.
Ela olhando para trás.
Eu olhando para frente.
Liguei os faróis.
E então vi.

Dois.
Quatro.
Seis.
Oito.
Talvez dez.
Pequenos pontos brilhantes no escuro.
Olhos.
Muitos olhos.
Não dava para enxergar os corpos.
Só os olhos.

Pisei no acelerador.
O carro deu um tranco.
Fiz o balão e entrei na estrada de terra.
E foi então que eles começaram a correr atrás da gente.
Ou pelo menos foi isso que pareceu.
Ouvia pancadas na lataria.
Pedras voando.
Galhos.
Ou talvez alguma coisa batendo no carro.
Não tive coragem de olhar.

A estrada tava cheia de buracos.
Eu precisava manter os olhos na frente.
Um erro e o carro poderia capotar.
Um buraco maior e poderíamos simplesmente desaparecer no mato.

Enquanto isso, Pirukinha latia olhando pelo vidro traseiro.
Latia como se tivesse descoberto uma verdade que eu, covarde e humano, preferia continuar ignorando.
Eles nos acompanharam por alguns minutos.
Ou alguma coisa nos acompanhou.

Porque essa é a parte estranha.
Eu não vi nenhum cachorro.
Não vi lobisomem.
Não vi criatura nenhuma.
Só ouvi.
Ouvi os rosnados.
Os latidos.
As patas.
As coisas correndo.
E, de vez em quando, alguma coisa batendo na lataria.
Até que, pouco a pouco, os sons foram ficando para trás.
Continuei dirigindo.
Sem parar.
Sem olhar.
Até chegar à estrada.
Só então diminui a velocidade.
Olhei para Pirukinha.
Ela estava quieta.
Eu também.

Nenhum de nós parecia interessado em comentar a experiência.
Talvez porque não tivéssemos certeza do que havia acontecido.
Talvez porque algumas coisas sejam melhores quando permanecem sem explicação.

Cheguei em casa.
Dei água para Pirukinha.
Coloquei o celular para carregar.
E fui olhar as fotografias que tinha feito naquela tarde.

Pôr do sol.
Serra.
Céu.
Estrelas.
Tudo muito bonito.
Tudo muito tranquilo.
Até chegar à última fotografia.
Aquela que eu não lembrava de ter feito.

Estava escura.
Quase completamente preta.
Mas, no canto inferior da imagem, havia dois pequenos pontos claros.
Dois olhos.
Talvez fosse apenas o reflexo de alguma coisa.
Talvez um cachorro.
Talvez uma estrela.
Talvez nada.
Ampliei a imagem.
E pensei que talvez fosse melhor não descobrir.

Afinal, existem fotografias que a gente tira para guardar lembranças.
E existem aquelas que parecem ter sido tiradas para nos lembrar de não voltar.
Mas conhecendo a Pirukinha...
Semana que vem ela provavelmente vai querer ir de novo.

E eu, idiota como todo bom protagonista de filme de terror, provavelmente vou levar a câmera.

domingo, 31 de agosto de 2025

Boquinha de Cachoeira


Lá estava eu: 16, talvez 17 anos, no auge da minha puberdade fracassada, sorrindo no espelho como se tivesse descoberto o fogo. Eu, um magrelo nerd de biblioteca, tinha conseguido um encontro com a garota que, pra mim, era a mais bonita da Escola Polivalente. Milagre. Sorte. Brincadeira cósmica. Talvez tudo junto.


Marcamos de nos encontrar na Praça da Prefeitura, sábado à noite; o coração de Ituiutaba, aquele zoológico a céu aberto com carrinhos de lanche, criançada elétrica e a turma do passinho dançando como se coreografassem o destino da humanidade.

Cheguei cedo, 19h, com a insegurança me sussurrando no ouvido: “Você veio, mas ela virá?”

E então o planeta parou de girar por alguns instantes. Sob os refletores amarelados dos postes, ela surgiu: divina, iluminada… e com um irmãozinho de 6 anos pendurado no braço, o cupido mais inconveniente da história.

Eu sorri feito um anjo de asa quebrada e coração em samba-enredo.

Passeamos. Cachorro-quente na mão. Até que o muleke berrou:
— Maninha, vamos pular na cama elástica?!
Ela, fingindo maturidade:
— Ah, não… já tô grande, não pode. Tô com dor na perna.
E o garoto, cruel como uma divindade infantil, virou os olhos pra mim:
— Então pula comigo!

Na minha cabeça, a lógica era simples: conquistar o irmão seria meio caminho pra beija-la. Topei sem pensar. Problema: até aquele instante eu nunca tinha sequer encostado numa cama elástica em toda a minha vida.

Subi. E virei atleta olímpico de mentira. Saltava, girava, virava mortais como se o SBT estivesse transmitindo o filme “Esporte Sangrento”. O menino me ovacionava. Eu era o Jackie Chan da periferia.

Descemos. O moleque me vendia como se eu fosse super-herói:
— Maninha, viu a altura que ele pulou? Quero aprender também!
Eu fazia cara de falsa humildade, mas por dentro já ensaiava o discurso do Oscar.

Agora finalmente seria meu momento de brilhar. Ela mandou o irmãozinho pra outro brinquedo pra ficarmos sozinhos num banco que ficava atrás da pastelaria, quase de frente pra Bandeirante Papelaria. Ela segurou minhas mãos, olhou nos meus olhos…

O beijo se aproximava… e minha visão ficou turva. Talvez nervosismo, talvez a consequência por ter pulado tão alto. Eu girei o rosto pro lado e explodi. Jatos. Geisers. Vomitei como se Ituiutaba precisasse de um novo chafariz. O cachorro-quente se remontava em 3D no chão, peça por peça, tomate, batata palha, salsicha; parecia até um crime alimentar sendo reconstituído pela perícia.

Ela, preocupada, perguntou: “Você tá bem? Quer ir pro hospital?”
E eu, um adulto de 16 anos, sorria, acenava que estava bem… antes de mandar mais um jato letal.

O público crescia: ela, o irmãozinho, transeuntes comendo pipoca, todos assistindo minha performance com olhos de plateia: “Olha lá, o Boquinha de Cachoeira.”

Eu, cada vez mais vermelho, já imaginava a segunda-feira no colégio: “Aquele é o cara que vomitou a chance da vida.”

Depois do apocalipse gástrico, ela ainda me ofereceu um Halls. Ficamos em silêncio. Eu, derrotado. Ela, provavelmente pensando em mudar de escola. O moleque? O irmão imitava meus espasmos, gargalhando.

E o pior: ainda faltava eu levar os dois pra casa.

Mas essa parte, meus amigos, foi talvez ainda mais trágica, respiro fundo e rio só de lembrar… Essa eu contarei em breve por aqui kkkkkkkk





Este é um blog de sonhos cotidianos.
Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mero plágio da vida.