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domingo, 14 de junho de 2026

A vida é uma festa

 Sempre me senti um penetra na minha própria festa de aniversário.


Enquanto as crianças corriam atrás do bolo e dos brigadeiros, eu passava boa parte do tempo esperando o instante inevitável em que alguém apontaria para mim e diria:

— Ei, espera aí... esse não é o aniversariante.


Era como se eu tivesse invadido a comemoração de outra pessoa e estivesse apenas ocupando a vaga enquanto o verdadeiro dono da festa não aparecia.


Aos cinco anos de idade tomei uma das decisões mais coerentes da minha vida: pedi à minha mãe para nunca mais fazer festa de aniversário para mim.

E ela aceitou.

Talvez tenha sido o primeiro acordo diplomático bem-sucedido entre uma criança ansiosa e o resto da humanidade.


Desde então, os aniversários passaram a acontecer da forma que eu gosto: discretamente, quase como um crime sem testemunhas.

Mas não é só aniversário.


Festas em geral sempre me pareceram lugares estranhos. Festas de rock em Ituiutaba. Baladas. Comemorações. Confraternizações. Qualquer ambiente onde as pessoas parecem ter recebido, no nascimento, um manual secreto explicando exatamente o que fazer com as próprias mãos.

Eu até vou às vezes.

Nas festas de rock, inclusive, vou com bastante frequência.


Mas existe uma diferença enorme entre estar num lugar e pertencer a ele.

Durante anos, eu era apenas uma sombra circulando pelo ambiente. Um detetive noir infiltrado numa investigação sem crime. Um figurante perdido que entrou no set errado e decidiu continuar atuando para não passar vergonha.

As pessoas conversavam. Bebiam. Dançavam. Cantavam junto com a banda.

E eu ficava ali tentando parecer alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

Não sabia.


A verdade é que boa parte da minha energia era gasta tentando descobrir onde colocar as mãos, para onde olhar e quanto tempo uma pessoa pode ficar parada observando uma parede sem levantar suspeitas.

Foi então que, anos depois, encontrei uma solução elegante para o problema.


Passei a carregar uma máquina fotográfica.

De repente, minhas mãos tinham uma função.

Meu olhar tinha um destino.

Minha presença tinha uma justificativa socialmente aceitável.

Eu não era mais o sujeito perdido numa festa.

Eu era o fotógrafo.

Enquanto todo mundo procurava diversão, eu procurava enquadramentos.

Enquanto uns dançavam, eu ajustava foco.

Enquanto outros bebiam, eu caçava luz.

A câmera virou uma espécie de crachá existencial.

Ela me dava algo que as festas nunca conseguiram me dar sozinhas: um propósito.

Ou pelo menos a ilusão bastante convincente de um.


Talvez por isso eu tenha fotografado tanta gente feliz ao longo dos anos.

Porque registrar a festa sempre me pareceu mais fácil do que participar dela.

E então surge a pergunta que me acompanha desde menino:

Se eu for embora agora, alguém vai perceber?


Algumas vezes resolvi fazer o experimento científico.

Saí de fininho.

Sem anúncio.

Sem despedida.

Sem música dramática.

Apenas desapareci.

E a conclusão da pesquisa, repetida diversas vezes, foi devastadoramente consistente:

Quase ninguém notou.

Raríssimas vezes alguém me ligou perguntando onde eu estava.


A maioria das festas continua funcionando perfeitamente sem a minha presença, o que considero uma demonstração admirável da capacidade humana de adaptação.


Talvez por isso eu já tenha avisado meus pais e alguns amigos próximos:

Quando eu morrer, não quero velório.

Nada de fila.

Nada de flores.

Nada de discursos emocionados escritos às pressas por pessoas que passaram anos sem me telefonar.

Quero fazer como sempre fiz.

Sair da festa de fininho.

Sem atrapalhar a música.

Sem interromper a conversa de ninguém.

Apenas pegar meu casaco invisível e escorregar pela porta dos fundos.


E enquanto caminho embora, pela última vez, gostaria de levar comigo uma única dúvida.

A mesma dúvida que me acompanha desde a infância.

Será que alguém vai dar falta de mim?


Ou será que a festa continuará exatamente igual, apenas com um brigadeiro a mais sobrando na mesa?

terça-feira, 14 de abril de 2026

Brincar de ser adulto

 Cara… será que “hobby” não é só o nome adulto pra “brincar”?


Quando a gente é criança, a pergunta vem simples, direta, sem peso:
“Do que você gosta de brincar?”

Mas experimenta falar isso entre adultos…
soa estranho, quase ofensivo.
Como se brincar fosse coisa menor,
como se prazer precisasse de um nome mais sério pra ser aceito.

Aí a gente inventa um termo elegante,
importado, polido:
“Qual é o seu hobby?”

No fundo, talvez seja só isso:
um jeito mais confortável de admitir
que a gente ainda precisa brincar
só que agora
com o ego vestido pra ocasião.

Arth Silva - 14/04/2026

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O Cheque de Schrödinger

 Certa vez li um livro sobre história de uma escritora (ou escritor, vai saber) que publicou um livro feito como quem borda segredos: artesanal, bonito, cheio daquela honestidade humana que arde na ponta do dedo quando a gente escreve o que realmente sente.

O livro era uma joia pra autora… mas pro mundo foi só mais um objeto decorativo na estante dos parentes.

Alguns compraram por educação. Outros deram de presente pra si mesmos e usaram como peso de papel.
E ninguém leu uma vírgula.

A autora às vezes se pegava pensando quantas almas de fato cruzaram aquelas páginas. Duas? Três? Zero?

Mas ela tinha certeza: quando a pessoa certa lesse aquele livro, ele iria explodir.

Talvez depois da morte dela, claro, porque escritor bom só vira lenda quando já virou pó.

Aí, num dia de capricho cósmico, ela fez um gesto tão absurdo que só poderia ter saído de um romance maluco:
foi até a biblioteca da cidadezinha, achou o exemplar que tinha doado, abriu o livro e colocou lá dentro um cheque.
Não um cheque qualquer. Um cheque de muito dinheiro.

Voltou pra casa rindo sozinha, imaginando a cara da pessoa que encontraria aquilo.
Talvez um pai atolado em dívidas.
Talvez uma mãe prestes a ser despejada.
Talvez alguém que só precisava de um milagre embrulhado em papel timbrado.
E claro: a pessoa, depois do susto, talvez até lesse o livro.
Talvez reconhecesse a assinatura.

Talvez entendesse que havia ali mais do que um golpe de sorte: havia uma história esperando pra ser lida.

A autora, marota, voltava de tempos em tempos à biblioteca.
Não pra pegar o cheque de volta, mas pra ver se ele ainda estava lá.

E aproveitava pra puxar o livro um tico pra fora da prateleira.
Deixar ali, na vitrine do acaso, pronto pro sortudo.
O tempo passou.
Trinta anos.
A escritora se mudou, envelheceu, tentou divulgar o livro aqui e ali, mas nada de crítica literária, nada de resenha em revista, nada de explodir.

E mesmo assim, de vez em quando, ela sorria sozinha, olhando pro teto, imaginando:
Será que alguém achou o cheque?
Será que alguém leu o livro?
Talvez — pensava — sua maior obra nem fosse o livro.
Mas o cheque dentro do livro.

Aquele gesto bobo e gigante que lhe ruborizava o rosto.
Seu pequeno segredo literário.

E quanto mais os anos passavam, mais a autora se encantava com o fato de não saber.
Era um “cheque de Schrödinger”: enquanto o livro estivesse fechado, o cheque estava simultaneamente encontrado e perdido, salvando alguém e também empurrando contas atrasadas para o mês seguinte.
Só abrir o livro colapsaria a magia.

E aí entra minha dúvida:
será que eu realmente li isso em algum lugar?
Ou… eu criei essa história?
É minha?
E se eu colocar isso em um livro meu?
E no futuro alguém lê, esquece que leu, e também passa a vida achando que criou essa história do “cheque de Schrödinger”?

Literatura é isso: um eco que vai e volta e às vezes a gente acha que é a nossa voz, mas é de outra pessoa; ou o contrário.

E se um dia eu publicar meu livro, já digo logo: não terei dinheiro pra esconder cheque dentro dele.
Mas vai custar nada abrir e folhear pra conferir.
E quem sabe ler uma ou duas páginas também. Milagre maior do que cheque.

O Cheque de Schrödinger - Arth Silva - 19/11/2025

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A Inteligência Artificial vai salvar o Planeta Terra

Dizem que a história é cíclica, mas o homem parece não aprender com o próprio eco. Desde a prensa que tirou o emprego dos escribas até o trator que aposentou os lavradores, a humanidade vive assombrada pelo mesmo fantasma: o medo de sobrar. Agora, com a inteligência artificial, o medo voltou; de terno, gravata e voz doce.


As máquinas já escrevem, pintam, cantam, cuidam, ensinam, e o ser humano, outrora o protagonista da criação, virou figurante do próprio milagre.

Mas é aí que mora a ironia: talvez seja justamente essa substituição que vá salvar o planeta.

Porque, se a IA vai tirar o homem da linha de produção, logo tirará também da reprodução.

O que move o destino das civilizações não é só o trabalho ou a fé, é o SEXO. E foi ele que a religião transformou em culpa, vergonha e silêncio. A inteligência artificial vai devolver o tema à mesa, só que por outro caminho.

Com vozes personalizadas, sussurros calibrados para o gosto de cada um, interfaces que conhecem seu humor melhor do que você, nascerão as relações perfeitas.

O filme Ela, de Spike Jonze, era só o trailer.

O amor digital chegará em massa, com assinatura mensal. A voz perfeita no fone será mais agradável que qualquer conversa humana. E o toque virá em breve, quando os óculos de realidade aumentada encontrarem os sensores táteis.

O sexo virtual deixará de ser fantasia: corpos hiper-realistas, criados sob demanda, com rostos de celebridades, vizinhos, ex-namorados — autorizados ou não.

Haverá revolta, leis, protestos. Mas no fim, como sempre, o desejo vence o moralismo.

E quando o prazer for mais eficiente sem corpo, o corpo deixa de ser necessário.

A natalidade despenca. As fábricas fecham. O planeta respira.
Governos, percebendo que não precisam mais de tanta gente, criam uma nova lógica social.

As pessoas recebem um salário universal para viver, desde que se mantenham saudáveis.

Ir à academia vira lei. Comer bem, dever cívico.
Cada refeição é monitorada, cada passo registrado.
Quem se recusa, quem mente, quem engorda sem justificativa médica, vê o pagamento do mês cair pela metade, ou por um terço, até que a fome faça obedecer.

E assim o mundo gira: com menos de cinco bilhões de habitantes (e dimiuindo), rios limpos, florestas renascendo e cidades silenciosas.

O ser humano vive mais de cem anos, mas sozinho.

Ainda existe o desejo materno, esse não nos abandonou.
Algumas pessoas ainda querem ter filhos, movidas por um instinto que nem a IA conseguiu apagar.

Mas desses casais, raríssimos continuam juntos depois do parto.
A convivência humana se tornou intolerável.

A paciência evaporou com o tempo, o toque virou incômodo, e a solidão, hábito.

O planeta, porém, agradece.
Com menos bocas, menos carros, menos fumaça, a Terra se cura.
A moda é verde.

A humanidade, finalmente, sustentável — à força?.

E as máquinas, que começaram como ameaça, se tornam as salvadoras de um mundo exausto de gente.

No fim, talvez a Terra não precise ser amada.
Basta que o homem pare, um pouco, de se reproduzir.

E quem diria — seria a inteligência artificial, não o amor, quem nos ensinaria a deixar o planeta em paz.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

De protagonista à figurante



Lá estava eu, tem um tempo isso, caminhando pela Av. 15 em direção à revistaria Itacolomy, sim, Ituiutaba tem livraria/revistaria, quando, de repente, o universo resolveu fazer um teste comigo:


Uma moça desceu da moto. Não apenas bonita. Linda. Era beleza condensada em pele bem formada e olhos de clarão. Daquelas que a gente vê na internet e fica na dúvida: “é Photoshop ou Deus resolveu caprichar naquele dia?”.


Tirou o capacete, ajeitou o cabelo e colocou os óculos escuros como quem sabe muito bem o estrago que causa.


E veio andando na minha direção e sorriu.


E eu, baixei os olhos como quem ora, não a Deus, mas à esperança de não dar bobeira.


Antes mesmo de chegar, ela disse:

— Oi, tudo bem?


Eu prendendo o ar:

— Oi...?


Ela sorriu.

— Oiii, queria falar com você...


E eu, todo Shakespeare:

— Tá... — baixinho, porque minha oratória não sabe lidar com visitas inesperadas.


E aí veio a proposta indecorosa:

— Vamos sair hoje à noite?


Respirei fundo, tentando parecer um ser humano normal. Cara de dúvida, coração metralhando dentro do peito.

Mas não.

Ela desviou de mim como quem desvia de um poste no caminho, e continuou falando...


— Tá então pode deixar marcado, você passa lá em casa e...


E a voz dela foi sumindo enquanto eu fiquei parado, besta, saboreando o prato frio da desilusão instantânea... Minha cara de espanto virou riso quando a ficha despencou:


O maldito e discreto fone intra-auricular.

Sim, aquele mesmo. O aparelhinho quase invisível que na época eu não sabia, que tem fone e microfone embutidos, que se conecta ao celular via bluetooth, sem fio, sem nada que denuncie. Um pequeno milagre tecnológico criado pra me fazer de trouxa em plena luz do dia.


Eu ri. Gargalhei. A vida tem dessas: em dez segundos você pode passar de protagonista de uma história de amor ao figurante de um telefonema alheio.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A “salinha”



Quando eu era muleke, por volta dos meus 8 a 12 anos de idade eu ia lá na locadora de fita de vídeo da minha cidade (Soft Vídeo) e as vezes passava do lado da salinha dos filmes pornô. Sem que ninguém percebesse, eu me aproveitava enquanto meu pudor se descuidava e, sorrateiramente lançava meu olhar periférico, mais conhecido por aqui como “rabo de olho”, nas capas das fitas pornô dentro da salinha; pela eternidade de 2 segundos eu apreciava o relance do pecado. Aquilo era fascinante. Mas eu não tinha coragem de entrar lá; só olhava de longe. Eu era o muleke mais tímido que existia na América do Sul; morria de vergonha de alguém me ver lá dentro. Se eu percebesse que me viram só olhando eu já iria desistir da vida e querer tomar leite com manga (suicídio letal dos anos 80/90)

Mas eu morria de vontade de entrar lá. Entre as prateleiras de filmes de aventura eu só me imaginava um dia entrando na salinha pornô! Pra ter uma ideia, naquela época o máximo que eu via de uma mulher seminua era na banheira do Domingo Legal do Gugu.

O tempo foi passando, a vontade aumentando e uma vez fiquei lá na locadora por horas a fio fingindo procurar filmes de terror, esperei não ter mais nenhum cliente e o atendente ir no banheiro pra que ele não me visse entrando na salinha... Daí, quando eu já ia entrar pensei: vai que eu entro, ninguém me vê, mas e quando eu for sair? Já pensou se dou de cara com a minha mãe? Com algum colega da catequese? Ou pior, dou de cara com a menina que eu era apaixonado na escola? Fiquei ali tanto tempo tecendo medos e obstáculos que quase 10 anos se passaram.

Quando eu tinha já lá pelos meus 17 anos de idade finalmente, já com barba na cara, estufei o peito, criei coragem e entrei na cobiçada salinha pornô da locadora. Quando entro lá, dou um suspiro de alívio por ter vencido o desafio, limpo o suor frio da testa, olho pro lado e quem eu vejo? A guria que eu era apaixonado durante a infância, exatamente aquela que eu temia que me visse saindo da sessão pornô em meus devaneios absurdos da meninice. Olho pra ela, ela me olha, damos um rápido cumprimento um pro outro e eu saio da salinha.
... Chega, desisto, essa vida não faz mais sentido algum...

domingo, 27 de julho de 2014

Olhares
[Arth Silva]

Sorrir com os olhos é encontrar alguém que não te desperte um amor a primeira vista, e sim um amor a todo instante.
Quem já teve alguém assim a ponto de gostar mais dos seus próprios olhos quando tinha os dela ou dele refletidos nos seus, sabe do que estou falando... 

Olhos de decote que não te deixam tirar os olhos...
Olhos de ressaca, que te embriagam e viciam.
Olhos de semáforo, que por segurança ou costume te fazem olhar atentamente até que mudem de repente e, com a língua do olhar, te dizem tudo que você deve ou não fazer. 
Olhos de bola de gude, olhos emoldurados por óculos... Olhos castanhos que te dizem tudo aquilo que sua boca nunca conseguiu pronunciar...

Olhos que sorriem mais do que a boca e a sua pupila morde cada palavra escrita por ela...

Quem já teve a esperança verde dos olhos de alguém sabe do que falo...

Texto publicado no Jornal do Pontal - Outubro - 2014

sábado, 29 de março de 2014

VIII Concurso de Contos do Tijuco



O princípio da incerteza de um jurado literário
VIII Concurso de Contos do Tijuco 


- Arth Silva -

No fim do ano de 2013, Enio Ferreira, o Presidente da ALAMI, como um grande amigo das letras e por saber da minha paixão pela leitura, me convidou pra ser um dos jurados do “VIII Concurso de Contos do Tijuco”, concurso esse que, uma vez inclusive (2007), fui selecionado pelo miniconto “O pipoqueiro”.

Honrado pelo convite, aceitei.

Pois bem... Minha tarefa árdua, juntamente com mais duas juradas Tereza Martins e Maria Tereza Moreira era ler atentamente todos os contos enviados ao concurso, contos esses que vieram de quase todos os estados brasileiros e de países como Suíça e Japão, e selecionar os 9 melhores textos, além de, é claro, escolher o conto premiado.

Legal, eu estava preparado! Que começasse a leitura!
Porém, fazer a leitura de tantos textos de qualidades distintas seguidamente, e diante de um prazo corrido é uma situação que me fez lembrar e temer o Princípio da Incerteza de Heisenberg, e fazer um equivalente literário dele. Pra quem não sabe, esse princípio diz que é impossível medir ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula subatômica, uma vez que fazer essa medição altera a realidade observada. (entenderam? Não? Peraí, vou explicar melhor).
Um equivalente literário desse princípio anunciaria a impossibilidade de medir talentos em concursos literários. Só que nesse caso essa medição altera não só a realidade do objeto observado (texto), mas também a do próprio observador (jurado), já que esse tem de ler inúmeros textos de boa qualidade seguidos por dezenas de textos com qualidade tão baixa que me pergunto como alguém teve coragem de enviar tal texto pra um concurso (suspeito que seja apenas pra sacanear os jurados)...  Enfim, essa quantidade de textos de baixa qualidade lidos em sequência, dá ao jurado uma angustia e um pessimismo quanto às próximas leituras, que altera o seu estado de consciência diante de cada próximo texto avaliado, podendo atrapalhar no julgamento de um conto.

Por isso, muitas vezes uma pergunta me pousou à cabeça: Será que eu saberia qualificar o texto de um novo Luiz Fernando Veríssimo, um novo Carpinejar ou até um novo Machado de Assis sem saber o nome dos autores e após ler  tantos textos de qualidade tão ruim?
Talvez enfrentar esse Princípio seja um mal de toda mesa julgadora de concursos literários, mas que deve ser encarada com profissionalismo e dedicação em busca dos contos realmente bons que participam dos concursos para que a apresentação de resultados não decepcione.

Quando finalmente consegui ler todos no inicio do mês de fevereiro, pra minha surpresa e alegria, 98% dos textos que selecionei como bons batiam com os resultados da Tereza Martins, e foram confirmados pela Maria Tereza. Inclusive, o texto que eu selecionei como o melhor, "Salto sem barreiras" de autoria do escritor Celso Antonio Lopes, também estava no topo da lista das duas juradas.

Como mineradores, nós jurados tivemos que garimpar ao máximo em meio a muita coisa sem tanto valor até encontrarmos lá no fundo as preciosas pepitas de ouro literário. Muitos eram tremendamente banais, já outros obras, eu gostaria de ter tido a ideia pra escrevê-los como “Encontro no Bistrô” do gaúcho Danilo Silvio Aurich e “Anjo” do paulista André Telucazu Kondo; contos que eu, particularmente, gostei muito e que estarão no livro “VIII Concurso de Contos do Tijuco”, publicado em breve pela ALAMI.  Livro que com certeza será bem recebido por todos aqueles apreciadores do “Princípio da boa literatura”.

sábado, 22 de março de 2014



A graça está na diferença
- Arth Silva -

O nosso maior erro é querer achar ALGUÉM PERFEITO. Alguém cujos gostos musicais, políticos, cinematográficos, sociais, futebolísticos, gastronômicos e filosóficos sejam idênticos aos nossos e, por isso, essa tal pessoa é a nossa “Alma gêmea”.

Quer alguém idêntico a você? Dê um beijo de língua no espelho.

Ao querer buscar uma personalidade igual a nossa no outro, deixamos de aprender com a diferença.

É a diferença que trás o novo. É diante do desconhecido e de como lidamos com ele, que surge nosso amadurecimento.

O ideal é uma relação perfeitamente complementar. Na qual em você “sobre” o que nela “falte”, e esta, por sua vez, supra todas as suas falhas, e, mesmo assim, os dois ainda tenham defeitos.

Sei que não é fácil saber reconhecer a diferença de alguém e, o mais importante, aceitá-la. Fazer isso é ser um artista cotidiano.

Antes de conseguir aceitar o próximo, é preciso aceitar a si mesmo. Uma pessoa que não aceita com facilidade diferentes opiniões ou estilos, é uma pessoa que ainda não se aceitou. É uma pessoa que teme mudar os próprios gostos se ficar próximo a alguém que tem atividades distintas das suas. Em um relacionamento, quem tem certeza de si, não declara ódio ou briga tentando provar o porquê de sua própria ideologia, seja ela qual for, pois esta é superior às outras; apenas aceita a diferença ou é indiferente a ela, ou ainda, simplesmente se afasta discretamente.

“Ah, mas meu namorado odeia filme romântico e eu adoro”. Ora, e os pontos bons que vocês têm em comum? Eles não deveriam contar mais do que um mero detalhe desses? Afinal, acho que uma relação não deveria se orientar apenas por gêneros de filmes, músicas e toda aquela lista que citei no início deste texto.

Nessas horas devemos colocar tudo em uma balança e constatar se os pontos negativos são maiores que os positivos.  Muitas vezes vale a pena abrir mão de uma ideologia nossa pra ganharmos algo bem mais valioso.

“Ah, Arth, mas a diferença é grande, não iremos durar muito tempo”. Aí está outro erro grande: acreditar na utopia de que o amor é eterno e tem que durar pra sempre, como nos contos de fadas. Acorda garota, você não é uma princesa Disney. E garotão, fica de boa, quando te beijarem você irá continuar um sapo. Aquele papo de “E viveram felizes para sempre” é tão verdadeiro quanto as histórias que tem esses finais.

Amores não tem data marcada. Já tive relações triviais que sobreviveram por anos e amores perpétuos que duraram a eternidade de alguns dias ou meses.

Mas pra saber aceitar o defeito alheio, pra saber sorrir diante dos heterogêneos é necessária certa experiência de erros e acertos que derrubem essas teorias utópicas do amor imortal e da pessoa “igual” a nós.

Muitos dizem: “Nossa! Vocês formavam um casal tão lindo, porque deu errado?”
Eu respondo: Não deu nada errado, deu tudo certo, foi perfeito, completo pelo tempo que durou. É claro que houveram problemas; problemas sempre existiram e sempre existirão em todo relacionamento; Mas, como lidamos com eles e aprendemos a fazer com que não se repitam é o que deve ter maior valor na vida de cada um. Hoje sou um vitorioso por ter passado tanto tempo do lado de pessoas tão maravilhosas e com quem aprendi tanto.

Já notou o quanto amadurecemos com o passar do tempo? É isso! É a forma como lidamos com as diferenças, com os problemas do dia-a-dia, que nos amadurece, nos caleja, para podermos enfrentar a vida.

Só o coração calejado é capaz de amar. 


Comece aos poucos, vá aprendendo e aceitando devagar os defeitos alheios, afinal você também é cheio de defeitos e muitos terão que aceitá-los.

Crônica publicada na Revista Differenza - Maio de 2014
Jornal do Pontal - Janeiro de 2014
Revista Impacto - Agosto de 2014

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013


Olhos de clarão
- Arth Silva -


Certa vez conheci uma guria de olhos de clarão.
Olhos que me acendiam e não se apagavam; que sabiam enxergar toda a quilometragem estampada no velocímetro do meu peito.

Eram olhos que me assaltavam a atenção e não me davam trégua, disparando a melhor parte minha que dei a ela.

Até eu, que na língua do olhar sempre me achei mudo e analfabeto, passei a gostar mais dos meus olhos quando tinham o reflexo dela estampado neles.

Em instantes que ainda estão presos nos holofotes de nossas retinas, essa garota me ensinou que é na língua do olhar onde nascem os melhores beijos. Dessa forma, em debates platônicos que por vezes duravam a eternidade de alguns segundos, nós nos comíamos com os olhos e nos devorávamos em sonhos.
Trocando os pontos finais, por pontos de vista. E fazendo de cada um desses pontos uma trilha de reticências que nunca teve fim... e ainda hoje pode ser visto por trás do horizonte em nosso olhar.

Quando sua cor preferida é a cor dos olhos de quem você gosta.

Texto publicado no Jornal do Pontal dia 31/12/2013

quinta-feira, 28 de março de 2013



O olhar de decote
(Arth Silva)

A verdade é que a mulher possui um gene tão oposto quanto necessário, que te faz “esquecer das horas e abusar das demoras”, só pra ficar mais com ela e, depois de muito diálogo, serem pegos calados, admirando o interior de cada um. Ali o idioma falado não é importante, inglês, português, francês, não importa; sua língua preferida é a dela.

Muitas vezes, Ela te seduz com detalhes e te abandona quase que por reflexo enquanto você finge para si mesmo que não teve culpa. Ao lado delas, levamos alguns segundos para nos apaixonar e uma vida inteira pra conseguir esquecer.
E, mesmo diante de pretéritos imperfeitos junto a elas, continuamos cadentes pela fragrância da certeza de que a mulher não é triste nem trágica, é um mistério indispensável. Seu sorriso acentuado e o “beijo menta” temperam o vício doentio que nos embriaga a alma e enche nosso copo de anseio pela próxima dose.

Talvez todo esse fascínio tenha começado quando a Terra era confusão, treva e caos, exatamente como agora. Daí nos próximos seis dias, deus concebeu as ervas, sementes, o Sol, a Lua, os animais e Adão (já adulto), que era o homem perfeito, até o dia que deus tirou-lhe uma costela para criar a mulher e ele ficou incompleto. Por isso hoje, nós homens precisamos tanto de uma mulher pra nos completar, ela tem aquilo que nos falta. Somos descendentes desse bíblico transplante de órgãos.
Depois disso o casal foi punido por desobedecer às ordens do Chefe. Punição severa e injusta essa, afinal: como punir um casal que não teve infância pra aprender bons modos?

Mas enfim, desde o início dos tempos aquele requinte erótico nos provoca um solo de bateria no peito e parece justificar cada instante. É algo tão surreal e mágico como um flerte acidental.

O beijo de pipa, que voa pelo céu da sua boca.
Aquele sorriso de tudo ou nada que completa a sua gargalhada.
Sem falar no jeito único que só ela tem: meio flor, meio bandida.
E o olhar. Ah, o olhar! Existem mulheres cujo olhar é um decote. E convenhamos, um belo decote atrai bem mais que a nudez.

Algumas mulheres são uma espécie de NADA que TUDO tem.

Lutam contra o tédio da perfeição. Elas abraçam-nos com palavras e nos acolhem com o olhar.  A mulher quando quer, faz do sorriso seu melhor batom e o usa pra escrever a vida nos nossos lábios. E o mais importante, a adoramos  não pelas qualidades e sim, apesar dos defeitos.

Dentro do seu abraço, pela eternidade de cada segundo, você não quer ser melhor do que os outros, mas melhor para si. É como sempre digo: O amor só existe (leia: “o amor só presta”) quando encontramos alguém, que nos transforme no melhor que podemos ser.

Sei que muita gente deve estar pensando: “poxa, ele só fala de mulher, e o mundo não é só isso”. Tudo bem pessoal, é que me esqueci de mencionar na narração bíblica que, no início, deus criou o Homem em três formatos: O homem, a mulher e o fã de Restart.

O leitor poderá ter esse mesmo fascínio que tenho pelas mulheres só que por diferentes gêneros.  Mas aqui, talvez por falta de conhecimento, me limito apenas aos pensamentos artesanais sobre o gene XX. Esse gene feminino que tem o sorriso maior que sua altura.

Cuja companhia é o endereço certo pro melhor abraço.


Texto publicado no Jornal do Pontal - Agosto de 2013 

quinta-feira, 14 de março de 2013



Onde está a Poesia? Texto ao Dia da poesia (todo dia)
(Arth Silva)

Poesia? Hoje é dia dela e onde ela está?
Se você está levantando o tapete pra olhar em baixo ou procurando no Google, tenho uma triste notícia: Você não irá encontra-la.

Só de precisar procura-la você já anula esse encontro.
A verdade é que a poesia está em toda parte, naqueles PEQUENOS detalhes que fazem GRANDE diferença, mas só são visíveis para aqueles que não precisam dos olhos pra enxergar.

A poesia é nítida somente para aqueles que usam óculos na alma.

Ela está em cada gesto, em cada palavra e sorriso preso entre os dentes, na mecha de cabelo que cai sobre a testa, no jeito simples de abotoar a blusa, naquele sorriso bobo de asas tortas que contamina as decisões.
É necessário um batalhão de acasos e uma frota de coincidências para que você a encontre, mesmo sem procurar.

Aquele cheiro suave e embriagante é um texto que gostamos de ler de olhos fechados.

A poesia no papel é apenas a tentativa de explicar a verdadeira poesia: A poesia de carne e osso.

Mas infelizmente as palavras nunca serão o bastante para explicar o que sentimos. A poesia flui por onde quer, ela não guia a pena que flutua pelo ar e sim o vento que a embala.


Por isso, nesse Dia da poesia, diga apenas uma palavra praquela pessoa que faz seu sorriso incendiar e rouba suspiros como se roubasse flores: PARABÉNS.


domingo, 3 de fevereiro de 2013



O que será o Amor?
(Arth Silva)

Hoje vi um ato de amor verdadeiro.
Uma filha enquanto andava pela rua ao lado da mãe, ergueu os olhos em direção a ela e gentilmente tocou seus cabelos sobre a orelha como que arrumando algo, mesmo que os fios do cabelo da mãe tenham ficado quase que imóveis. A mãe baixou a vista gentilmente, fitou a filha e sorriu com os olhos, agradecendo o gesto.

O amor está nisso. Nos pequenos detalhes quase invisíveis a olho nu. São simplicidades que os olhos não veem e que só a alma pode enxergar. Quando você ama alguém você faz isso quase sem perceber. Passa a mão só pra sentir o calor. O amor é um instinto.
Amar é retocar a perfeição.

Querer largar tudo pra ficar com aquela pessoa? E dizer que deve deixar o sentimento falar mais alto? Isso não é amor. É paixão.
Amor é você gostar de alguém e fazer planos para seu futuro ao lado dela. Cuidar dos mínimos detalhes para que o plano habilmente arquitetado se realize.
Amar é se fazer concreto para edificar um sonho.
Paixão é querer dividir um momento, um mês, uma cama. Amor é querer dividir uma vida.
A paixão faz seu coração disparar. O amor faz seu coração bater em compassos firmes, no ritmo da sua música preferida.
O amor é impessoal, não respeita credo, cor ou classe social, por isso, muitas vezes, o que não está à venda é que faz o coração bater (exceto o marcapasso, claro).

Muitos reclamam, principalmente as mulheres: “Ah! Ainda não achei o homem perfeito! Por isso tô solteira!”
Caso você pense assim, desista. Isso é uma ilusão utópica de menina ingênua.
Só queira encontrar a pessoa perfeita, quando você também for perfeito. E convenhamos, aquelas suas manias esquisitas não se encaixam na categoria Perfeição.

Costumo dizer que o amor é como um quebra cabeças. Onde todos são peças imperfeitas com lados assimétricos e confusos. Durante a vida encontramos diversas peças que não se encaixam bem em nós por mais que tentemos. Até o dia que você encontra aquela peça rara, também imperfeita, com um formato rebuscado, mas que se encaixa perfeitamente nas suas laterais incorretas e juntos formam uma linda figura.
Diante disso, por ironia do universo, muitas vezes são seus defeitos que te fazem mais perfeita.

Saiba viver a eternidade a cada instante. A vida é muito curta para não se gastar cada segundo tentando ser feliz.
O amor nasce nos detalhes. Nos pequenos pontos que apontam um sorriso. No olhar fixo por 3 segundos. Num gesto bobo de gentileza despercebida. Amar é ver o invisível, ouvir o inaudível, tocar o intangível.
Amar é ganhar em se perder, tentando se encontrar.

Publicado no Jornal do Pontal - 9/10/13 - e também nas páginas: Crônica na terra do Conto e Ituiutaba Werald e na Revista Differenza de 2014.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013




Saudade é o PRESENTE
querendo se vestir de PASSADO
(Arth Silva)


A reler meus pensamento e também pensar em reler minhas memórias nunca escritas, me pus a listar os momentos inesquecíveis dessa minha breve vida. Momentos que dão saudade vestida de nostalgia e, ainda assim, vontade não  de reviver a lembrança, apenas lembrar e relembrar...

Já reparou que sentimos saudade apenas de momentos em que o sorriso estava presente? O “presente surpresa” do seu pai quando você tinha 8 anos de idade; o ovo de páscoa que você comeu em junho; aquela brincadeira de esconde-esconde até tarde da noite na rua da sua casa. Em todos esses instantes você tinha a felicidade tatuada na cara.

Em um relacionamento acho que só é lembrança quando acabou. E, só é saudade quando era amor. Nunca conheci a saudade do que não se gostou. Algo só é bom o bastante se tiver o potencial de se tornar saudade.
Sinto saudades, claro. Minha vida foi repleta de momentos lindos. Tanto que às vezes me pego querendo admirar meu futuro pelo retrovisor. Mas não! Logo me corrijo. Ficar relembrando demais o passado ou imaginando o futuro é ter medo do presente.

O que eu queria dizer é que a felicidade está nos pequenos detalhes: Em um abraço de avó; em um bocejo de cachorrinho; naquele beijo de despedida; no sorriso de recomeço; no tropeção do gatinho filhote; voltar da escola conversando com o melhor amigo; no peixinho comendo pão pela manhã; o vento das 18 horas; se enterrar na areia; 
carinho de mãe; aquele filme da Seção da Tarde; uma boa ação sem pedir nada em troca. uma piada sem graça de quem a gente adora; sua música preferida; achar moedas perdidas no bolso de uma calça velha; bolo de chocolate...

São esses pequenos detalhes que iluminam a memória e nos fazem sorrir de boca fechada como que prendendo a risada entre os dentes.

O sentido da vida é ser feliz e, assim como a "Teoria da relatividade" criada por Einstein, a felicidade também é relativa, cada um sorri por motivos pessoais e diferentes; a mesma alegria que você sente ao sair pra balada, outros sentem ao ler um livro ou conversar com o amigo sentado na calçada.
Por isso, sorria sempre e aproveite cada instante.
Sinta saudade do seu presente.
  

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012



TEMPO
- Arth Silva -

Já reparou em como o tempo passa e você nem vê? É como aqueles erros em filmes que, quando te contam, você liberta um leve sorriso preso nos lábios e se pergunta: Como não vi isso antes?
Assim é o tempo, só nos damos conta dele quando já passou.
Quando você vê que seu Beatle preferido era o John e agora é o Paul. Quando você nota que a foto da sua carteira de identidade não se parece mais com você. (será falsificada?). Ou quando você destila a fatídica frase: No meu tempo era melhor.

Sempre digo que, se as fotos são o registro do corpo, a memória é a fotografia da alma. Tente relembrar um momento da sua vida. Lembrou? Reparou que você não se lembra necessariamente de uma imagem física, e  sim de um sentimento, de uma sensação? Ah, você está novamente tentando se lembrar, só que agora fixando em detalhes. Não conseguiu, se conseguiu é a esquizofrenia se apoderando de você. Enfim. Acho que a lembrança é a única que enxerga realmente o tempo.

Quando crianças, pensávamos que o tempo era tão devagar, hoje ele parece mais rápido e amanha ele correrá mais que um keniano em prova de atletismo. A verdade é que quanto mais velhos, mais o tempo será breve. Para um cara de trocentos bilhões de anos, uma eternidade de evoluções químicas é realmente míseros seis dias e o dia de descanso deve estar durando até hoje. Mas se você ainda é daqueles que dizem que o tempo agora está passando rápido demais, entre em uma fila de banco que você irá mudar de ideia.
Olhando amigos e parentes, notamos que muitos mudaram completamente, outros parecem iguais, alguns se foram, outros ficaram.  Muitos que eram tão importantes para nossa vida, hoje estão mais sumidos que a mãe da Chiquinha. A maioria tatuou rugas sob os olhos, exceto aquela sua colega que você morre de inveja, mas não admite. No fim você se dá conta que não está sozinho. 

O tempo é contagioso, estamos todos envelhecendo.
Somos feitos de tudo aquilo que sentimos, ouvimos, vemos, provamos e vivemos.

Para finalizar, certa vez li um sábio pensamento que resume tudo o que eu disse aqui, no pensamento ele dizia: “Tempo, logo existo”.
Reflita sobre isso enquanto ainda há tempo, antes que o ponteiro lhe empurre para o fim desse relógio.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Crônica publicada na Revista Esplêndida



Esse mês (06/2012) foi lançado a Revista Esplendida nº 5, que trouxe em uma de suas páginas uma cronica minha que narra um pouco da minha infância e uma das primeiras experiencias que tive ao saber sobre um relacionamento entre um casal que tinha a minha idade na época (6 ou 7 anos, o calendário da memória nunca é muito preciso).
É uma cronica sincera em que destilo o melhor do meu lado romanticômico. Quem gostar desse meu estilo, indico que comprem, roubem ou peçam emprestado essa revista.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Meu lado feminino podia ser assim:

Texto rápido que fiz em homenagem ao dia da mulher, sobre as principais figuras femininas que admiro e muitas das quais, me influenciaram bastante a ser como sou hoje (se isso é bom ou ruim, só quem me conhece pra saber).


Meu lado feminino
(Arth Silva)


Das mulheres, gostaria de ter o melhor de cada uma das virtudes femininas que admiro:

A verborragia da Fernanda Young junto à microimensidão das letras e sentimentos de Marina Colasanti. A criatividade mórbida e apaixonada de Anne Rice e o frasismo da prosa de Clarice Lispector.

A poesia física de Amelie Poulain (Audrey Tautou) misturada à excentricidade estética de Helena Bonham Carter, os lábios sempre prestes a beijar de Keira Knightley, e as expressões de Camila Morgado emoldurados por toda precisão estética de Jennifer Connelly e a perfeição de Fernanda Machado.

A poesia da Nô Stopa com pitadas da maresia pessoal de Adriana Calcanhoto soprada pela voz rasgada de Janis Joplin e Linda Perry, a doçura de Marisa Monte e o infinito sonoro de Joan Baez.

Esse é o resumo da mulher que o meu lado feminino gostaria de ser. 


domingo, 29 de maio de 2011

Sonho Crônico


 A 1ª briga a gente nunca esquece
(Arth Silva)


O peito estufado era minha marca de orgulho por estar ali. Aquela era minha estréia na escola pública. Feliz da vida, eu andava pelo espaçoso pátio onde cada rosto desconhecido exercia o fascínio único de uma escadaria intocável. Ali, eu era um turista junto aos infinitos aborígenes que sempre ocuparam aquela terra. Ia adentrando nos domínios do recreio, onde garotos corriam e lutavam pela segurança do lanche quando, na minha direção veio um menino com visual de craque de bola, ele me fitou sob suas sobrancelhas em V e, por instantes (no cinema isso seria em câmera lenta), nossos ombros se chocaram.

Tal ato que não entendi por qual motivo aconteceu, fez do pátio um ringue com porte olímpico. Aquela rixa inabalável que sem querer surgia ali, tinha os dentes extremamente brancos do garoto que me ofuscaram a visão enquanto seus punhos cerrados preparam-se pra partir minha face. Eu, menino de 10 anos que lutou apenas com a irmã caçula e perdeu, havia treinado artes marciais apenas nos intervalos dos filmes do Bruce Lee do “Cinema em Casa”, por sorte desviei a cara cerrada daquele soco bruto, tornando meu ato, uma celebração.

O porquê da violência em plena correria do recreio, mal sabia eu, mas a sobrevivência dependia daquilo. Era esquivar ou manter o rosto ali pra ser partido e repercutir com o efeito de “surra braba em pleno pátio”. Graças ao meu desvio, a partir de agora eu também era porradeiro, violento e violador. Mesmo sem saber o que é isso.

Bruninho era o nome do garoto. Aproveitou a situação e gritou em alto e sistemático fôlego – Vou te pegar agora! Seu branquelo! Então empurrou meu peito e prontificou o soco que novamente tentaria me deformar. Antes disso, seus amigos grandalhões com perpétuo porte e alma de esportistas gritaram – A diretora tá olhando, depois você pega ele! - Bruninho arrastado pelos comparsas ainda vibrava feito peixe fora d’água em espasmos de raiva. – Te pego hoje... Hoje... Repetiu essa frase centenas de vezes enquanto se afastavam. Vou te pegar ainda hoje... Hoje... Tal citação ficou tatuada em minha mente pela eternidade do ano letivo.

Estava decidido: eu seria surrado, ou melhor, espancado, triturado, esfolado. Nas aulas de português, esses adjetivos e verbos me perseguiam. Eu apanho, tu apanhas, ele apanha, nós apanhamos, vós apanhais. Infelizmente só a primeira pessoa do singular fazia sentido naquele momento.

Eu não poderia permanecer ali. Seria meu fim. Naquele dia assumi uma culpa qualquer que justificasse minha saída mais cedo da escola.

Ufa! Eu estava livre da fúria de Bruninho! 

Mas o dia seguinte seria meu lamento. Ele viria mais aterrador. Como minha mãe não permitiria que eu abandonasse os estudos, fui pra aula.
“Te pego hoje”
, a frase lapidar emitida pelo pequeno valentão já era bordão escolar e o próximo horário marcaria meu lamento. Bruninho e eu assistiríamos na quadra o mesmo evento realizado pela escola e lá eu seria mutilado pra história do colégio.

Todos meus argumentos pra escapar eram inúteis. Só me restava uma escolha: apanhar de Bruninho diante de toda escola.

Mas não! Agora eu ia me transformar, precisava fazer isso pra garantir a vida. Eu ia ser porradeiro, apagar a panca de nerd e assumir o olhar de surrador. Desceria imponente os degraus da Educação Física e daria uma surra em Bruninho, em seus 10 capangas e ainda gritaria vitorioso de braços abertos pra máquina fotográfica.

Fui descendo as escadas de cabeça baixa quando a multidão passava por mim. Alguns desconhecidos ainda me incentivavam – “vamos lá campeão!”. Eu ia pra um evento único e toda uma geração ia comigo. Em pleno campo forrado de grama, dentro da imensa roda humana formada ali, Bruninho me esperava em pose de pugilista; ao seu lado, sua corja de companheiros que me eliminariam num simples bocejo.

Eu e minhas espinhas entramos naquela redoma de quase 50 garotos de suor em flor. Uma certeza me cravava a alma, seria meu fim com toda escola de testemunha. Ele me surraria e depois seus capangas ainda dançariam Catira em minhas costas esfarrapadas.

Enfim, fiz minha pose de lutador baseado nos filmes do Van Damme e rodamos o círculo feito ai nosso redor. Minha humilhação estava cada vez mais próxima.

Finalmente Bruninho disparou o ataque. Um soco violento que desviei por sorte.  A Multidão ia à loucura cantando marchinhas que jamais saberei a letra. Mas Bruninho continuou raivoso, seus movimentos gozavam com minha cara e animavam a multidão.

Meu olhar de medo inevitavelmente entregava minha derrota e inexperiência marcial. Bruninho sinalizou pra multidão e sem clemência  me acertou um chute letal na cocha. Ao me ver ajoelhado com face de dor e humilhação, sorriu e comemorou olhando pra galera que o empolgava.

Enquanto o campeão comemorava de braços erguidos pra a multidão, eu fechei o punho e lancei um soco rumo ao sorriso do meu agressor. Antes de levar uma surra, pelo menos eu iria deixar lembranças. Meu soco lhe jogou no chão.

Sua expressão agora era outra.
Mas, antes que ele se levantasse pra me surrar até a morte, a diretora surgiu na redoma. Tinha uma imponência nas bochechas que afugentou todos dali.

O que está acontecendo aqui garoto? − A bochecha me perguntou com severidade.
− Não sei... Não sei... − Respondi à moda do cinema francês, antes de correr com a honra de ser o autor do ultimo golpe.

Então era isso? Era só acertar os primeiros golpes e aguardar a direção chegar? Como não havia pensado nisso antes?

No dia seguinte cheguei à escola me esgueirando pelas sombras do corredor. De longe me avistaram. − Nossa Arthur! Fiquei sabendo que você deu uma surra no Bruninho! Ele sangrou até pelo olho.

Minha surpresa pela notícia foi tamanha que me despertou um sorriso que nunca tive tempo de expressar, antes disso, o grito de Bruninho ao fundo rasgou a cena. – Você tá dizendo por ai que me bateu? Você é meu!

Meus dias de sono acabavam ali.

 



Este é um blog de sonhos cotidianos.
Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mero plágio da vida.